Que é Justiça?
Pergunta importantíssima nesta época em que apesar do protagonismo dos tribunais é tão grande a sensação do contrário. Mas não basta saber o que uma coisa não é, para se fazer algo antes é preciso saber o que algo é! Não seria este o grande problema em nossa conjuntura?
“ADEMAIS, diz o Filósofo que a virtude exige primeiramente, que se saiba o que se faz; depois, que se escolha o que fazer e a que fim; e, em terceiro lugar, que se tenha disposição firme e imutável para fazê-lo.” Tomas de Aquino. ST
“Somos todos teólogos”, foi o que disse um grande teólogo, R. C. Sproul. Infelizmente, segundo o google, nenhum dos grandes juristas ou juízes, esses deuses remunerados pelos cofres públicos, cuja punição pelas más obras é generosa aposentadoria compulsória, parece ter dito algo semelhante sobre sua vocação, e bem fizeram - que não julguemos para não sermos julgados - mas na verdade eu não sou, nenhum nem outro, e que Deus me perdoe se erro em minhas reflexões.
Mas o que é Justiça? Eis a questão que se coloca! Aquilo que se faz nos tribunais ou nas academias de Direito? Considerando a racionalidade como a arte de proferir sentenças, o que há mais no mundo são juízes e no entanto, Justiça é o que menos no mundo parece haver. Creio que o significado da palavra Justiça seja diferente até daquele encontrado nos grandes escritos sobre virtudes. Considerando de um lado a grandeza desta entidade que investigamos e de outro, o miserável estado em que nos encontramos, Justiça, parece muito mais que mera virtude humana se é que existam virtudes legitimamente humanas…"Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço." Romanos 7. 18-19
Lemos dos grandes: “dar a cada um o que é seu”...ora, há uma ideia aqui de mérito, merecimento, trabalho e salário, direito e dever… estremeço só de pensar! Quantos homens seriam felizes e satisfeitos por receberem exatamente aquilo que merecem?! "(...) como está escrito: Não há justo, nem um sequer" Romanos 3:10. Por outro lado, escrito também está: “bem aventurados os que tem fome e sede de justiça porque serão saciados” há algo aqui que ainda não compreendemos muito bem. Sabemos que Deus é justo e que por sua Soberana Vontade somos poupados de tudo aquilo que justamente merecemos por Obra alheia, méritos de um Homem de Verdade que jamais pecou e no entanto, “o castigo que nos traz paz estava sobre Ele” Isaías 53. Dar a cada um o que é seu?!
Convém de passagem citar a diferença entre Justiça, δικαιοσύνη dikaiosune (Mateus 3:15, 5:6, 5:10, 5:20...) refere-se à retidao que agrada a Deus, o estado de estar em conformidade com Seu Senhor e Juízo κρίσις krisis (Mateus 5:21, 5:22, 10:15, 11:22, Tiago 2:13…) que trata do veredicto, da sentença, o ato de julgar as ações... “Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo. Tiago 2:13” Isso é Justiça! Mas porque? Como definir com perfeição esta benção que satisfaz a fome e a sede dos bem aventurados?
Existem também outros maiores do que nós, que sob um enfoque que nos parece no mínimo liberal, admitem um pseudo dilema: "é justo porque Deus quer, ou Deus quer porque é justo?". Esta dúvida, nos parece, e novamente que Deus nos perdoe se erramos em nossas meditações, talvez revele menos sobre quem a formula e mais sobre os limites daquilo que se pode exigir da razão especulativa diante do mistério da vontade divina. Primeiro porque, tal dilema pressupõe a existência de uma suposta justiça que seria critério para julgar o Deus criador de todas as coisas, fonte da Verdade que nos revela o que é justo e o que não é, ou seja, não há um "lugar" de onde o homem possa examinar a justiça em si mesma, dissociada de tudo o que Deus revelou sobre ela. Segundo, porque limitados que somos, não temos acesso pleno ás razões de Deus, "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem..." terceiro que esta nossa limitação sobre este mistério não é uma lacuna que deva ser preenchida pela razão especulativa, mas pela Fé, sendo não uma restrição punitiva ao homem mas Ato da Misericórida Divina, pois a Fé por meio da qual somos salvos conforme a Palavra de Deus é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vê.
Há muito tempo um homem creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça. Quando Abraão levou seu amado filho ao Monte Moriá ele estava praticando a Justiça no mais exato sentido da palavra: “Mas quando de repente tu ordenas algo inusitado e imprevisto, mesmo que o tenhas vetado em outros tempos, ainda que escondas por enquanto a razão de tua ordem e ainda que seja contra a convenção da sociedade de um determinado povo, quem duvida que isso deva ser feito, se a Sociedade Humana Justa é aquela que te obedece?!” Agostinho de Hipona. Confissões.
Ouçamos a Verdade!
Aquele que disse “bem aventurados os que têm fome e sede de Justiça porque serão fartos” também disse: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.” João 4:34 Quando o profeta João em sua santa humildade lhe disse: “Eu careço de ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?!” muito provavelmente acreditava o santo Batista que JUSTO seria ele ser batizado por Cristo e não o contrário, mas o Homem que nunca pecou, sobre O qual pesaria na Cruz os pecados de todos os demais respondeu: “...Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a JUSTIÇA (dikaiosune)” Mateus 3:15 .
Ora, eis que justiça não me parece ser “dar a cada um o que é seu”, mas o Fazer a Vontade de Deus!
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU!
Perdoa-nos Senhor pelos nossos apetites mundanos, dá-nos ó Deus, fome e sede de Justiça, para que sejamos por Ti saciados.


















