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O conservador que nunca leu um conservador
Há palavras que morrem de velhice e palavras que morrem de sucesso. Conservador está morrendo da segunda doença, a mais vergonhosa, porque foi apanhada pela multidão, gritada em carreata, estampada em boné e vendida em camiseta a quarenta e nove e noventa. O sujeito que hoje se diz conservador no Brasil, e seu primo mais rico, o conservative de Ohio ou da Flórida, não sabe quem foi Edmund Burke, confunde Russell Kirk com um personagem de Star Trek e, se lhe puserem nas mãos as Reflexões sobre a Revolução em França, usará o volume como calço de mesa no comitê de campanha. Não é exagero retórico, leitor, é diagnóstico clínico. Faça o teste. Pergunte ao militante mais aguerrido do seu grupo de WhatsApp o que é o princípio da prescrição. Ele achará que é coisa de farmácia.
O que se apresenta hoje sob esse nome, nos dois hemisférios, é uma tripla deformação que eu me permito batizar com a crueldade que ela merece, o culto à personalidade, que transforma um político de carne, osso e processos num ícone de procissão. O messianismo, que espera desse ícone a redenção nacional, a limpeza do mundo e, quem sabe, a ressurreição dos mortos. E o mercantilismo, que reduz a pátria a uma balança comercial e a política externa a uma tabela de tarifas. Três vícios que os clássicos do conservadorismo passaram dois séculos denunciando, e que agora desfilam fantasiados de conservadorismo, com a cara mais lavada do mundo. É como se um bando de jacobinos, depois de guilhotinar o rei, saísse às ruas vestido de cardeal e exigisse ser chamado de Eminência.
Russell Kirk, cujos Dez Princípios Conservadores o leitor brasileiro tem à disposição, em boa tradução, há décadas, e que, portanto, só não leu quem não quis, abre o texto com uma advertência que deveria ser afixada na parede do quarto de todo comentarista de rede social, logo acima do ringue láite, o conservadorismo, não sendo nem uma religião nem uma ideologia, não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Aqui, com todo o respeito devido ao velho sábio de Mecosta, permito-me discordar. O próprio Kirk, duas páginas adiante, afirma que existe uma ordem moral duradoura, que esta ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela, que a natureza humana é uma constante e as verdades morais são permanentes. Muito bem, se são permanentes, estão em algum lugar. Verdades morais não flutuam no éter como balões de festa junina. Têm endereço, origem e autoridade. E o Ocidente jamais conheceu outro endereço senão as Escrituras Sagradas e a tradição judaico-cristã que delas nasceu, do Sinai ao Sermão da Montanha, de Agostinho a Tomás de Aquino, pilar sobre o qual se ergueu tudo aquilo que hoje chamamos de civilização ocidental, inclusive o Parlamento de Burke. O conservadorismo não é uma religião, concedo. Mas é filho de uma, e filho que renega a mãe vira órfão de rua. Ora, o que vemos? Os mesmos que gritam Deus em todo comício trocaram o Decálogo por um catecismo de ocasião, com hinário, inimigos oficiais, heresias catalogadas e, sinal infalível de toda seita política moderna, um homem providencial no altar-mor, onde antes estava a Cruz. Não lhes falta Escritura, falta-lhes lê-la.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro, e o caipira nacional pode consolar-se com a ideia de que não está sozinho no ridículo. Nos Estados Unidos, o partido que um dia abrigou a gravidade de um Robert Taft e a inteligência de um William Buckley Júnior converteu-se num fã-clube cujo programa de governo cabe num boné vermelho, Make America Great Again. Quatro palavras, nenhuma ideia, e uma nostalgia de um passado que ninguém sabe exatamente quando foi. Kirk diria que o conservador ama as coisas permanentes. O militante do movimento Maga ama uma marca registrada. A diferença entre as duas coisas é a mesma que há entre uma catedral e um parque temático com a fachada de uma catedral.
No Brasil a coisa é ainda mais pitoresca, porque aqui toda tragédia importada chega com sotaque de chanchada. Chamaram um deputado do baixo clero de mito, e a palavra, que na boca de um helenista significa a narrativa sagrada que funda uma civilização, passou a significar, no idioma das redes, o cara que lacrou. O mito, por sua vez, gerou uma dinastia, e chegamos a outubro de dois mil e vinte e seis com o sobrenome disputando o segundo turno presidencial como quem herda uma franquia de lanchonete. Burke defendeu, sim, a herança e a sucessão hereditária, mas a herança de instituições, de títulos submetidos à lei e ao Parlamento, não a herança de um capital eleitoral transmitido de pai para filho como se transmite a senha de um perfil no Instagram. Confundir as duas coisas é como confundir a Coroa britânica com o espólio de um cantor sertanejo.
E não me venham com o argumento, que já ouvi de gente com diploma, de que o importante é derrotar a esquerda. Esse raciocínio é precisamente o raciocínio revolucionário, o fim justifica os meios, a urgência dispensa a prudência, o inimigo é tão monstruoso que qualquer coisa que se lhe oponha torna-se automaticamente virtuosa. É Lênin com terço na mão. Quem pensa assim já perdeu a guerra cultural que diz estar travando, porque já adotou a gramática moral do adversário. O conservador que só sabe definir-se pelo ódio ao comunista é um comunista com o sinal trocado, e, como todo produto falsificado, sai mais barato e dura menos.
Burke não tinha mito, tinha Parlamento
Comecemos pelo pai de todos, já que os filhos bastardos insistem em usar-lhe o sobrenome. Edmund Burke passou a vida inteira lutando contra uma única coisa, o poder pessoal sem freio. Combateu Jorge Terceiro quando o rei quis governar por cima do Parlamento com sua corte de amigos do rei. Combateu a política de força contra as colônias americanas, e com tal veemência que chegou a ser agente assalariado de Nova York. Combateu durante quatorze anos Warren Hastings, governador de Bengala, cujo crime era precisamente o de tratar um povo inteiro como propriedade de sua vontade. E quando a Revolução Francesa estourou, combateu-a porque viu nela o mesmo monstro com outra roupa, a vontade de um punhado de homens, ou de um só, pretendendo refazer a sociedade do zero. A obra inteira de Burke é um tratado contra o homem providencial. Quem invoca Burke para defender um líder carismático está invocando São Jorge para defender o dragão.
Há um episódio que deveria ser ensinado em todo curso de formação política, se é que ainda existe isso no meio de tanta mentoria a novecentos e noventa e sete reais. Em mil setecentos e setenta e quatro, eleito por Bristol, Burke fez aos seus eleitores o famoso discurso em que lhes disse, olho no olho, que não seria seu garoto de recados. Devia-lhes, sim, o seu juízo e a sua consciência. E trairia os eleitores, em vez de servi-los, se sacrificasse esse juízo à opinião deles. Seis anos depois, por manter posições impopulares, perdeu a cadeira. Comparem agora com o conservador de dois mil e vinte e seis, que muda de opinião conforme o engajamento da última live, que vota segundo a enquete do Telegram e que tem pavor de ser cancelado pela própria base. Burke preferiu perder a eleição a perder a alma. O nosso herói prefere perder a alma a perder um seguidor.
E Burke não era um santo de vitral, não, era um homem de paixões, de excessos, de discursos tão longos que os deputados escapuliam do plenário quando ele se levantava. Mas era um homem que se submetia a algo maior do que ele, a constituição não escrita da Inglaterra, a Magna Carta, a Bill of Rights de mil seiscentos e oitenta e nove, a longa sedimentação de precedentes que limitava até o rei. Quando disse que o indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, estava dizendo, com todas as letras, que nenhum indivíduo, nem o rei, nem o tribuno, nem o capitão, pode substituir com a sua razãozinha particular a sabedoria acumulada das gerações. O culto à personalidade é exatamente a inversa, é a aposta de que o indivíduo é sábio e a espécie é tola, e de que, portanto, basta seguir o homem.
Kirk, no seu nono princípio, é de uma clareza que chega a ser constrangedora para os seus pretensos discípulos, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas. Contenção do poder, não a sua concentração nas mãos do nosso campeão. Contenção das paixões, não a sua exacerbação em comícios de berreiro e em cortes de vídeo com trilha sonora de filme de ação. O conservador kirkiano desconfia do poder inclusive quando ele está nas mãos dos seus. Sobretudo quando está nas mãos dos seus, porque é aí que a vigilância afrouxa. O militante de hoje faz o contrário, desconfia do poder alheio e idolatra o próprio, como o ladrão que defende a pena de morte para os outros ladrões.
E o messianismo, meus caros? Kirk o enterrou no sexto princípio, o da imperfectibilidade. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Buscar a utopia, diz ele, é terminar num desastre. E aqui é preciso evocar Eric Voegelin, que diagnosticou nas ideologias modernas a tentativa de imanentizar o éscaton, de trazer para dentro da história a salvação que o cristianismo reservava para o fim dos tempos. O comunismo prometia o paraíso sem classes. O nosso pseudoconservadorismo promete o paraíso sem esquerdistas. A estrutura é idêntica, um povo eleito, um inimigo absoluto, um líder iluminado e o dia glorioso da vitória final, depois do qual tudo será limpo, puro e verde-amarelo. É gnosticismo de churrascaria.
O mais cômico, ou o mais trágico, conforme o humor do leitor, é que esse messianismo se apresenta como cristão. Deus acima de todos, dizem. Mas, na prática, o líder está acima de Deus, porque é ele quem decide quem é bom cristão e quem é traidor. Santo Agostinho passou vinte e dois livros da Cidade de Deus explicando que nenhuma cidade terrena se confunde com a celeste, que todo império é provisório e que a esperança do cristão não está posta em Roma, nem em Brasília, nem em Washington. O cristão que espera de um presidente a salvação do mundo não cometeu um erro político, cometeu idolatria, no sentido técnico e teológico do termo. Dostoiévski já havia desenhado esse personagem no Grande Inquisidor, que oferece ao povo pão, mistério e autoridade em troca da liberdade, e o povo, agradecido, beija-lhe a mão.
Ainda Kirk, agora no quarto princípio, a prudência é a primeira das virtudes do estadista, e toda medida deve ser pesada pelas prováveis consequências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Ele cita John Randolph of Roanoke, a Providência move-se devagar, mas o demônio está sempre com pressa. Pois bem, existe algo mais apressado do que a política do engajamento? Do que o decreto anunciado num post antes de ser escrito, a ameaça feita ao meio-dia e desmentida às seis, a guerra comercial declarada numa madrugada de insônia? Se a pressa é a assinatura do demônio, como queria Randolph, então certos palácios presidenciais deveriam ser exorcizados antes de serem auditados.
Scruton, a tribo e o balcão
Chego agora a Roger Scruton, o último grande conservador inglês, cujo As Vantagens do Pessimismo é talvez o livro mais inútil que um militante brasileiro poderia ler, inútil no sentido de que ele não o entenderia, e, se o entendesse, teria de rasgar a carteirinha. O próprio Scruton, com aquela ironia britânica que nossos acólitos confundem com frescura, advertiu no prefácio que seu argumento era totalmente inútil contra aqueles que ele põe em xeque, porque as irracionalidades que examina estão plugadas no córtex humano. Pois bem, o objeto do livro é o otimismo inescrupuloso de que falava Schopenhauer, a esperança que, separada da fé e não temperada pela evidência da história, torna-se um ativo perigoso. O leitor percebe aonde quero chegar. Não existe esperança mais inescrupulosa do que a do eleitor que acredita que um único homem, uma vez instalado no poder, vai consertar a nação.
Scruton descreve, no capítulo sobre o nosso passado tribal, a mentalidade da tribo primitiva, nela o pensamento do chefe é o pensamento da tribo, aqueles que fazem perguntas inconvenientes não têm nenhuma utilidade para a comunidade, e um chefe com dúvidas é aquele que está fadado a desaparecer. Releia o leitor essas frases devagar, e depois abra qualquer grupo de apoiadores de qualquer mito nas Américas. Encontrará a tribo de Scruton intacta, apenas com uaifai. O chefe não pode duvidar, não pode recuar, não pode pedir desculpas. Quem levanta uma objeção é isentão, traidor, infiltrado. Aquilo que se diz conservadorismo é, na verdade, a regressão da sociedade civil à horda, justamente aquilo contra o que a civilização conservadora foi construída, tijolo por tijolo, durante dois milênios.
E o destino do dissidente nessa tribo? Scruton, seguindo René Girard, responde, o bode expiatório. Quando as ilusões do otimista correm o risco de refutação, o crítico não é tratado como alguém que sustenta uma posição rival, mas como o inimigo de dentro, a vítima cuja aniquilação prova que minhas ilusões são invulneráveis, uma vez que são compartilhadas. Quantos conservadores de verdade, gente que leu, que pensou, que tinha biblioteca e não apenas perfil, não foram queimados em praça pública digital por terem ousado discordar do chefe num ponto qualquer? A seita precisa de hereges como o motor precisa de combustível. Sem alguém para expulsar, ela não saberia mais quem ela é.
Passo ao terceiro vício, o mais rasteiro e, por isso mesmo, o mais revelador, o mercantilismo. O pseudoconservador contemporâneo descobriu as tarifas alfandegárias como o adolescente descobre a cerveja, com entusiasmo, sem medida e achando que inventou a coisa. Ora, o mercantilismo, a doutrina de que a riqueza de uma nação se mede pelo saldo da sua balança comercial, de que o comércio é guerra e de que o Estado deve tutelar a economia com barreiras e privilégios, foi precisamente o sistema que Adam Smith demoliu em mil setecentos e setenta e seis, no mesmo ano em que as colônias que Burke defendia proclamavam a independência. Smith e Burke eram amigos e se admiravam. O livro quarto da Riqueza das Nações é um requisitório contra o sistema mercantil, contra o conluio entre comerciantes privilegiados e governantes, contra a ideia de que o ganho de um país é necessariamente a perda de outro. Ressuscitar isso em nome da tradição anglo-saxônica é como ressuscitar a sangria em nome da medicina moderna.
Scruton tem um nome para isso, a falácia da soma zero, a crença de que, se alguém ganha, outro necessariamente perdeu. Ele lembra que os mercados não são jogos de soma zero e que, como os preços condensam informação que nenhum planejador possui, toda tentativa de dirigi-los a partir do gabinete do chefe repete, em escala menor, o erro do planejamento central. Hayek chamaria isso de pretensão do conhecimento. Eu chamo de socialismo de empresário amigo, o Estado não expropria a indústria, mas decide, com uma canetada, quais indústrias vão prosperar e quais vão quebrar, conforme a lealdade dos donos ao Grande Timoneiro. Mussolini tinha uma palavra para isso, e não era liberdade.
Mas o mercantilismo de que falo não é só alfandegário. É espiritual. Kirk avisava, no sétimo princípio, que aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana e que a propriedade impõe deveres morais ao possuidor. Burke lamentou que a idade da cavalaria tivesse passado e que a de sofistas, economistas e calculadores a tivesse sucedido. O que diria ele de um movimento que vende orações em curso pago, bíblias autografadas, moedas comemorativas, tênis dourados com o rosto do líder, e que converte a fé, a família e a pátria em linhas de produtos? Os vendilhões foram expulsos do templo uma vez. Agora voltaram, montaram loja virtual e aceitam pix. Isso não é conservadorismo, é merchandising com incenso.
Note o leitor a ironia mais profunda. A esquerda acusa os conservadores de serem servos do dinheiro, e os conservadores autênticos sempre responderam que não, que o mercado deve estar subordinado a uma ordem moral que o transcende, é o que Scruton chama de tensão entre a defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista, resolvida pelo consenso moral da comunidade. Pois o pseudoconservador de hoje deu à esquerda, de bandeja, a prova que ela nunca conseguiu fabricar sozinha. Marx escreveu que a burguesia afogou o êxtase religioso nas águas geladas do cálculo egoísta. Era uma calúnia contra a burguesia de seu tempo. Virou reportagem sobre a direita do nosso.
O que seria, afinal, um conservador
Se tudo isso não é conservadorismo, o leitor perguntará, com razão, o que é. Michael Oakeshott respondeu melhor do que ninguém, ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao não testado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica. Leiam de novo a lista e confrontem-na com o comício. O militante prefere o mistério ao fato, a conspiração da semana, o possível ao real, a vitória que vão roubar, o ilimitado ao limitado, o poder do chefe, o distante ao próximo, a guerra mundial contra o globalismo, em vez da escola do bairro, o superabundante ao suficiente, a lacração diária, o perfeito ao conveniente, a nação purificada. Ponto por ponto, é o retrato invertido do conservador. É o negativo da fotografia, revelado no laboratório errado.
O conservador verdadeiro começa pelo que Burke chamou de pequenos pelotões, a família, a paróquia, a associação de bairro, a corporação de ofício, a escola, o clube, aquilo que Kirk, no oitavo princípio, chama de comunidades voluntárias, em oposição ao coletivismo involuntário. E o que é uma massa de seguidores digitais, organizada de cima para baixo em torno de um nome próprio, senão o coletivismo involuntário na sua forma mais acabada? Tocqueville previu a figura, o indivíduo isolado, sem corpos intermédios, que se entrega a um poder imenso e tutelar porque não tem mais nada entre si e o Estado. Ortega y Gasset deu-lhe o nome de homem-massa, aquele que não se exige nada e se acha no direito de impor a sua vulgaridade a todos. Não há nada menos conservador do que um homem-massa de verde e amarelo, ou de vermelho com boné.
O conservador verdadeiro cultiva, para voltar a Scruton, os dois hábitos que ele considerava as bênçãos de longo prazo da civilização europeia, o perdão e a ironia. O perdão, que exige do malfeitor arrependimento e do qual deriva, diz Scruton, a própria prestação de contas no cargo público, a primeira coisa a desaparecer quando os utópicos entram em cena. E a ironia, que é a capacidade de olhar as próprias opiniões como se fossem de outra pessoa e corrigi-las. Ora, o líder messiânico não pede perdão nunca, porque nunca erra. E o seu seguidor não conhece a ironia, apenas o sarcasmo, que Scruton define justamente como o seu contrário, um modo de rejeição, não de aceitação. Movimento sem perdão e sem ironia não é civilização, é a horda de volta, com microfone.
Não se trata, note bem, de pregar a mornidão ou o centro equidistante dos que não têm coragem de pensar. Kirk, no décimo princípio, lembra que estabilidade e mudança devem ser reconciliadas, e Burke ensinou que a mudança é o meio de nossa preservação. O conservador pode e deve combater, e combater com dureza, a revolução cultural, a engenharia social, a arrogância dos planejadores. Mas combate-a com as armas da civilização, a lei, a instituição, a prudência, o argumento, a paciência das gerações. Quem a combate com as armas da revolução, o caudilho, a massa, a urgência, o bode expiatório, já foi derrotado por ela, apenas ainda não recebeu a notificação. Chesterton dizia que a tradição é a democracia dos mortos, a recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que por acaso estão vivos. O pseudoconservador fez pior, submeteu-se à oligarquia de um só vivo.
Termino como comecei, com uma palavra. Os bonapartistas franceses também se diziam defensores da ordem, da religião e da propriedade. Marx, que de bobo não tinha nada, escreveu que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Burke viu a tragédia em mil setecentos e oitenta e nove. Nós, que temos o privilégio duvidoso de viver em dois mil e vinte e seis, estamos assistindo à farsa, e com ingresso pago. Ao leitor que ainda se diz conservador, deixo um conselho que não é meu, é da tradição inteira, desligue o celular, abra Burke, abra Kirk, abra Scruton, e pergunte-se honestamente se aquele homem no palanque caberia em alguma página deles. Se a resposta for não, e será, você terá dado o primeiro passo para voltar a ser o que diz que é. Se a resposta for sim, meu amigo, receio que o problema não esteja no palanque. Está na biblioteca que você nunca teve.







