sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Conservadorismo Sequestrado.

O conservador que nunca leu um conservador

Há palavras que morrem de velhice e palavras que morrem de sucesso. Conservador está morrendo da segunda doença, a mais vergonhosa, porque foi apanhada pela multidão, gritada em carreata, estampada em boné e vendida em camiseta a quarenta e nove e noventa. O sujeito que hoje se diz conservador no Brasil, e seu primo mais rico, o conservative de Ohio ou da Flórida, não sabe quem foi Edmund Burke, confunde Russell Kirk com um personagem de Star Trek e, se lhe puserem nas mãos as Reflexões sobre a Revolução em França, usará o volume como calço de mesa no comitê de campanha. Não é exagero retórico, leitor, é diagnóstico clínico. Faça o teste. Pergunte ao militante mais aguerrido do seu grupo de WhatsApp o que é o princípio da prescrição. Ele achará que é coisa de farmácia.

O que se apresenta hoje sob esse nome, nos dois hemisférios, é uma tripla deformação que eu me permito batizar com a crueldade que ela merece, o culto à personalidade, que transforma um político de carne, osso e processos num ícone de procissão. O messianismo, que espera desse ícone a redenção nacional, a limpeza do mundo e, quem sabe, a ressurreição dos mortos. E o mercantilismo, que reduz a pátria a uma balança comercial e a política externa a uma tabela de tarifas. Três vícios que os clássicos do conservadorismo passaram dois séculos denunciando, e que agora desfilam fantasiados de conservadorismo, com a cara mais lavada do mundo. É como se um bando de jacobinos, depois de guilhotinar o rei, saísse às ruas vestido de cardeal e exigisse ser chamado de Eminência.

Russell Kirk, cujos Dez Princípios Conservadores o leitor brasileiro tem à disposição, em boa tradução, há décadas, e que, portanto, só não leu quem não quis, abre o texto com uma advertência que deveria ser afixada na parede do quarto de todo comentarista de rede social, logo acima do ringue láite, o conservadorismo, não sendo nem uma religião nem uma ideologia, não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Aqui, com todo o respeito devido ao velho sábio de Mecosta, permito-me discordar. O próprio Kirk, duas páginas adiante, afirma que existe uma ordem moral duradoura, que esta ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela, que a natureza humana é uma constante e as verdades morais são permanentes. Muito bem, se são permanentes, estão em algum lugar. Verdades morais não flutuam no éter como balões de festa junina. Têm endereço, origem e autoridade. E o Ocidente jamais conheceu outro endereço senão as Escrituras Sagradas e a tradição judaico-cristã que delas nasceu, do Sinai ao Sermão da Montanha, de Agostinho a Tomás de Aquino, pilar sobre o qual se ergueu tudo aquilo que hoje chamamos de civilização ocidental, inclusive o Parlamento de Burke. O conservadorismo não é uma religião, concedo. Mas é filho de uma, e filho que renega a mãe vira órfão de rua. Ora, o que vemos? Os mesmos que gritam Deus em todo comício trocaram o Decálogo por um catecismo de ocasião, com hinário, inimigos oficiais, heresias catalogadas e, sinal infalível de toda seita política moderna, um homem providencial no altar-mor, onde antes estava a Cruz. Não lhes falta Escritura, falta-lhes lê-la.

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro, e o caipira nacional pode consolar-se com a ideia de que não está sozinho no ridículo. Nos Estados Unidos, o partido que um dia abrigou a gravidade de um Robert Taft e a inteligência de um William Buckley Júnior converteu-se num fã-clube cujo programa de governo cabe num boné vermelho, Make America Great Again. Quatro palavras, nenhuma ideia, e uma nostalgia de um passado que ninguém sabe exatamente quando foi. Kirk diria que o conservador ama as coisas permanentes. O militante do movimento Maga ama uma marca registrada. A diferença entre as duas coisas é a mesma que há entre uma catedral e um parque temático com a fachada de uma catedral.

No Brasil a coisa é ainda mais pitoresca, porque aqui toda tragédia importada chega com sotaque de chanchada. Chamaram um deputado do baixo clero de mito, e a palavra, que na boca de um helenista significa a narrativa sagrada que funda uma civilização, passou a significar, no idioma das redes, o cara que lacrou. O mito, por sua vez, gerou uma dinastia, e chegamos a outubro de dois mil e vinte e seis com o sobrenome disputando o segundo turno presidencial como quem herda uma franquia de lanchonete. Burke defendeu, sim, a herança e a sucessão hereditária, mas a herança de instituições, de títulos submetidos à lei e ao Parlamento, não a herança de um capital eleitoral transmitido de pai para filho como se transmite a senha de um perfil no Instagram. Confundir as duas coisas é como confundir a Coroa britânica com o espólio de um cantor sertanejo.

E não me venham com o argumento, que já ouvi de gente com diploma, de que o importante é derrotar a esquerda. Esse raciocínio é precisamente o raciocínio revolucionário, o fim justifica os meios, a urgência dispensa a prudência, o inimigo é tão monstruoso que qualquer coisa que se lhe oponha torna-se automaticamente virtuosa. É Lênin com terço na mão. Quem pensa assim já perdeu a guerra cultural que diz estar travando, porque já adotou a gramática moral do adversário. O conservador que só sabe definir-se pelo ódio ao comunista é um comunista com o sinal trocado, e, como todo produto falsificado, sai mais barato e dura menos.

 Burke não tinha mito, tinha Parlamento

Comecemos pelo pai de todos, já que os filhos bastardos insistem em usar-lhe o sobrenome. Edmund Burke passou a vida inteira lutando contra uma única coisa, o poder pessoal sem freio. Combateu Jorge Terceiro quando o rei quis governar por cima do Parlamento com sua corte de amigos do rei. Combateu a política de força contra as colônias americanas, e com tal veemência que chegou a ser agente assalariado de Nova York. Combateu durante quatorze anos Warren Hastings, governador de Bengala, cujo crime era precisamente o de tratar um povo inteiro como propriedade de sua vontade. E quando a Revolução Francesa estourou, combateu-a porque viu nela o mesmo monstro com outra roupa, a vontade de um punhado de homens, ou de um só, pretendendo refazer a sociedade do zero. A obra inteira de Burke é um tratado contra o homem providencial. Quem invoca Burke para defender um líder carismático está invocando São Jorge para defender o dragão.

Há um episódio que deveria ser ensinado em todo curso de formação política, se é que ainda existe isso no meio de tanta mentoria a novecentos e noventa e sete reais. Em mil setecentos e setenta e quatro, eleito por Bristol, Burke fez aos seus eleitores o famoso discurso em que lhes disse, olho no olho, que não seria seu garoto de recados. Devia-lhes, sim, o seu juízo e a sua consciência. E trairia os eleitores, em vez de servi-los, se sacrificasse esse juízo à opinião deles. Seis anos depois, por manter posições impopulares, perdeu a cadeira. Comparem agora com o conservador de dois mil e vinte e seis, que muda de opinião conforme o engajamento da última live, que vota segundo a enquete do Telegram e que tem pavor de ser cancelado pela própria base. Burke preferiu perder a eleição a perder a alma. O nosso herói prefere perder a alma a perder um seguidor.

E Burke não era um santo de vitral, não, era um homem de paixões, de excessos, de discursos tão longos que os deputados escapuliam do plenário quando ele se levantava. Mas era um homem que se submetia a algo maior do que ele, a constituição não escrita da Inglaterra, a Magna Carta, a Bill of Rights de mil seiscentos e oitenta e nove, a longa sedimentação de precedentes que limitava até o rei. Quando disse que o indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, estava dizendo, com todas as letras, que nenhum indivíduo, nem o rei, nem o tribuno, nem o capitão, pode substituir com a sua razãozinha particular a sabedoria acumulada das gerações. O culto à personalidade é exatamente a inversa, é a aposta de que o indivíduo é sábio e a espécie é tola, e de que, portanto, basta seguir o homem.

Kirk, no seu nono princípio, é de uma clareza que chega a ser constrangedora para os seus pretensos discípulos, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas. Contenção do poder, não a sua concentração nas mãos do nosso campeão. Contenção das paixões, não a sua exacerbação em comícios de berreiro e em cortes de vídeo com trilha sonora de filme de ação. O conservador kirkiano desconfia do poder inclusive quando ele está nas mãos dos seus. Sobretudo quando está nas mãos dos seus, porque é aí que a vigilância afrouxa. O militante de hoje faz o contrário, desconfia do poder alheio e idolatra o próprio, como o ladrão que defende a pena de morte para os outros ladrões.

E o messianismo, meus caros? Kirk o enterrou no sexto princípio, o da imperfectibilidade. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Buscar a utopia, diz ele, é terminar num desastre. E aqui é preciso evocar Eric Voegelin, que diagnosticou nas ideologias modernas a tentativa de imanentizar o éscaton, de trazer para dentro da história a salvação que o cristianismo reservava para o fim dos tempos. O comunismo prometia o paraíso sem classes. O nosso pseudoconservadorismo promete o paraíso sem esquerdistas. A estrutura é idêntica, um povo eleito, um inimigo absoluto, um líder iluminado e o dia glorioso da vitória final, depois do qual tudo será limpo, puro e verde-amarelo. É gnosticismo de churrascaria.

O mais cômico, ou o mais trágico, conforme o humor do leitor, é que esse messianismo se apresenta como cristão. Deus acima de todos, dizem. Mas, na prática, o líder está acima de Deus, porque é ele quem decide quem é bom cristão e quem é traidor. Santo Agostinho passou vinte e dois livros da Cidade de Deus explicando que nenhuma cidade terrena se confunde com a celeste, que todo império é provisório e que a esperança do cristão não está posta em Roma, nem em Brasília, nem em Washington. O cristão que espera de um presidente a salvação do mundo não cometeu um erro político, cometeu idolatria, no sentido técnico e teológico do termo. Dostoiévski já havia desenhado esse personagem no Grande Inquisidor, que oferece ao povo pão, mistério e autoridade em troca da liberdade, e o povo, agradecido, beija-lhe a mão.

Ainda Kirk, agora no quarto princípio, a prudência é a primeira das virtudes do estadista, e toda medida deve ser pesada pelas prováveis consequências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Ele cita John Randolph of Roanoke, a Providência move-se devagar, mas o demônio está sempre com pressa. Pois bem, existe algo mais apressado do que a política do engajamento? Do que o decreto anunciado num post antes de ser escrito, a ameaça feita ao meio-dia e desmentida às seis, a guerra comercial declarada numa madrugada de insônia? Se a pressa é a assinatura do demônio, como queria Randolph, então certos palácios presidenciais deveriam ser exorcizados antes de serem auditados.

Scruton, a tribo e o balcão

Chego agora a Roger Scruton, o último grande conservador inglês, cujo As Vantagens do Pessimismo é talvez o livro mais inútil que um militante brasileiro poderia ler, inútil no sentido de que ele não o entenderia, e, se o entendesse, teria de rasgar a carteirinha. O próprio Scruton, com aquela ironia britânica que nossos acólitos confundem com frescura, advertiu no prefácio que seu argumento era totalmente inútil contra aqueles que ele põe em xeque, porque as irracionalidades que examina estão plugadas no córtex humano. Pois bem, o objeto do livro é o otimismo inescrupuloso de que falava Schopenhauer, a esperança que, separada da fé e não temperada pela evidência da história, torna-se um ativo perigoso. O leitor percebe aonde quero chegar. Não existe esperança mais inescrupulosa do que a do eleitor que acredita que um único homem, uma vez instalado no poder, vai consertar a nação.

Scruton descreve, no capítulo sobre o nosso passado tribal, a mentalidade da tribo primitiva, nela o pensamento do chefe é o pensamento da tribo, aqueles que fazem perguntas inconvenientes não têm nenhuma utilidade para a comunidade, e um chefe com dúvidas é aquele que está fadado a desaparecer. Releia o leitor essas frases devagar, e depois abra qualquer grupo de apoiadores de qualquer mito nas Américas. Encontrará a tribo de Scruton intacta, apenas com uaifai. O chefe não pode duvidar, não pode recuar, não pode pedir desculpas. Quem levanta uma objeção é isentão, traidor, infiltrado. Aquilo que se diz conservadorismo é, na verdade, a regressão da sociedade civil à horda, justamente aquilo contra o que a civilização conservadora foi construída, tijolo por tijolo, durante dois milênios.

E o destino do dissidente nessa tribo? Scruton, seguindo René Girard, responde, o bode expiatório. Quando as ilusões do otimista correm o risco de refutação, o crítico não é tratado como alguém que sustenta uma posição rival, mas como o inimigo de dentro, a vítima cuja aniquilação prova que minhas ilusões são invulneráveis, uma vez que são compartilhadas. Quantos conservadores de verdade, gente que leu, que pensou, que tinha biblioteca e não apenas perfil, não foram queimados em praça pública digital por terem ousado discordar do chefe num ponto qualquer? A seita precisa de hereges como o motor precisa de combustível. Sem alguém para expulsar, ela não saberia mais quem ela é.

Passo ao terceiro vício, o mais rasteiro e, por isso mesmo, o mais revelador, o mercantilismo. O pseudoconservador contemporâneo descobriu as tarifas alfandegárias como o adolescente descobre a cerveja, com entusiasmo, sem medida e achando que inventou a coisa. Ora, o mercantilismo, a doutrina de que a riqueza de uma nação se mede pelo saldo da sua balança comercial, de que o comércio é guerra e de que o Estado deve tutelar a economia com barreiras e privilégios, foi precisamente o sistema que Adam Smith demoliu em mil setecentos e setenta e seis, no mesmo ano em que as colônias que Burke defendia proclamavam a independência. Smith e Burke eram amigos e se admiravam. O livro quarto da Riqueza das Nações é um requisitório contra o sistema mercantil, contra o conluio entre comerciantes privilegiados e governantes, contra a ideia de que o ganho de um país é necessariamente a perda de outro. Ressuscitar isso em nome da tradição anglo-saxônica é como ressuscitar a sangria em nome da medicina moderna.

Scruton tem um nome para isso, a falácia da soma zero, a crença de que, se alguém ganha, outro necessariamente perdeu. Ele lembra que os mercados não são jogos de soma zero e que, como os preços condensam informação que nenhum planejador possui, toda tentativa de dirigi-los a partir do gabinete do chefe repete, em escala menor, o erro do planejamento central. Hayek chamaria isso de pretensão do conhecimento. Eu chamo de socialismo de empresário amigo, o Estado não expropria a indústria, mas decide, com uma canetada, quais indústrias vão prosperar e quais vão quebrar, conforme a lealdade dos donos ao Grande Timoneiro. Mussolini tinha uma palavra para isso, e não era liberdade.

Mas o mercantilismo de que falo não é só alfandegário. É espiritual. Kirk avisava, no sétimo princípio, que aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana e que a propriedade impõe deveres morais ao possuidor. Burke lamentou que a idade da cavalaria tivesse passado e que a de sofistas, economistas e calculadores a tivesse sucedido. O que diria ele de um movimento que vende orações em curso pago, bíblias autografadas, moedas comemorativas, tênis dourados com o rosto do líder, e que converte a fé, a família e a pátria em linhas de produtos? Os vendilhões foram expulsos do templo uma vez. Agora voltaram, montaram loja virtual e aceitam pix. Isso não é conservadorismo, é merchandising com incenso.

Note o leitor a ironia mais profunda. A esquerda acusa os conservadores de serem servos do dinheiro, e os conservadores autênticos sempre responderam que não, que o mercado deve estar subordinado a uma ordem moral que o transcende, é o que Scruton chama de tensão entre a defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista, resolvida pelo consenso moral da comunidade. Pois o pseudoconservador de hoje deu à esquerda, de bandeja, a prova que ela nunca conseguiu fabricar sozinha. Marx escreveu que a burguesia afogou o êxtase religioso nas águas geladas do cálculo egoísta. Era uma calúnia contra a burguesia de seu tempo. Virou reportagem sobre a direita do nosso.

O que seria, afinal, um conservador

Se tudo isso não é conservadorismo, o leitor perguntará, com razão, o que é. Michael Oakeshott respondeu melhor do que ninguém, ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao não testado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica. Leiam de novo a lista e confrontem-na com o comício. O militante prefere o mistério ao fato, a conspiração da semana, o possível ao real, a vitória que vão roubar, o ilimitado ao limitado, o poder do chefe, o distante ao próximo, a guerra mundial contra o globalismo, em vez da escola do bairro, o superabundante ao suficiente, a lacração diária, o perfeito ao conveniente, a nação purificada. Ponto por ponto, é o retrato invertido do conservador. É o negativo da fotografia, revelado no laboratório errado.

O conservador verdadeiro começa pelo que Burke chamou de pequenos pelotões, a família, a paróquia, a associação de bairro, a corporação de ofício, a escola, o clube, aquilo que Kirk, no oitavo princípio, chama de comunidades voluntárias, em oposição ao coletivismo involuntário. E o que é uma massa de seguidores digitais, organizada de cima para baixo em torno de um nome próprio, senão o coletivismo involuntário na sua forma mais acabada? Tocqueville previu a figura, o indivíduo isolado, sem corpos intermédios, que se entrega a um poder imenso e tutelar porque não tem mais nada entre si e o Estado. Ortega y Gasset deu-lhe o nome de homem-massa, aquele que não se exige nada e se acha no direito de impor a sua vulgaridade a todos. Não há nada menos conservador do que um homem-massa de verde e amarelo, ou de vermelho com boné.

O conservador verdadeiro cultiva, para voltar a Scruton, os dois hábitos que ele considerava as bênçãos de longo prazo da civilização europeia, o perdão e a ironia. O perdão, que exige do malfeitor arrependimento e do qual deriva, diz Scruton, a própria prestação de contas no cargo público, a primeira coisa a desaparecer quando os utópicos entram em cena. E a ironia, que é a capacidade de olhar as próprias opiniões como se fossem de outra pessoa e corrigi-las. Ora, o líder messiânico não pede perdão nunca, porque nunca erra. E o seu seguidor não conhece a ironia, apenas o sarcasmo, que Scruton define justamente como o seu contrário, um modo de rejeição, não de aceitação. Movimento sem perdão e sem ironia não é civilização, é a horda de volta, com microfone.

Não se trata, note bem, de pregar a mornidão ou o centro equidistante dos que não têm coragem de pensar. Kirk, no décimo princípio, lembra que estabilidade e mudança devem ser reconciliadas, e Burke ensinou que a mudança é o meio de nossa preservação. O conservador pode e deve combater, e combater com dureza, a revolução cultural, a engenharia social, a arrogância dos planejadores. Mas combate-a com as armas da civilização, a lei, a instituição, a prudência, o argumento, a paciência das gerações. Quem a combate com as armas da revolução, o caudilho, a massa, a urgência, o bode expiatório, já foi derrotado por ela, apenas ainda não recebeu a notificação. Chesterton dizia que a tradição é a democracia dos mortos, a recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que por acaso estão vivos. O pseudoconservador fez pior, submeteu-se à oligarquia de um só vivo.

Termino como comecei, com uma palavra. Os bonapartistas franceses também se diziam defensores da ordem, da religião e da propriedade. Marx, que de bobo não tinha nada, escreveu que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Burke viu a tragédia em mil setecentos e oitenta e nove. Nós, que temos o privilégio duvidoso de viver em dois mil e vinte e seis, estamos assistindo à farsa, e com ingresso pago. Ao leitor que ainda se diz conservador, deixo um conselho que não é meu, é da tradição inteira, desligue o celular, abra Burke, abra Kirk, abra Scruton, e pergunte-se honestamente se aquele homem no palanque caberia em alguma página deles. Se a resposta for não, e será, você terá dado o primeiro passo para voltar a ser o que diz que é. Se a resposta for sim, meu amigo, receio que o problema não esteja no palanque. Está na biblioteca que você nunca teve.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Fronte coroada de espinhos

e os ligeiros barcos da Aônia

Como vim a editar as Memórias de Além-Túmulo (em breve na Amazon e/ou aqui em nosso blog)

Comecei por dois fragmentos mal lembrados.

Foi lendo Antoine Albalat, há uns dez anos, que encontrei Chateaubriand pela primeira vez. Albalat ensinava a escrever pela assimilação dos grandes prosadores, e punha Chateaubriand entre os primeiros — citava-o como se cita um mestre de quem não se discute a autoridade. Duas passagens me ficaram na cabeça e de lá não saíram.

A primeira:

"Ligeiros barcos da Aônia, sulcai o mar calmo e sereno, escravos de Netuno, defraldai as velas ao sopro amoroso dos ventos."

A segunda, de Atala, na tradução portuguesa que Albalat me trouxe — e que eu mesmo retoquei, trocando "chefe" por "Líder":

"E que soldado há, tão covarde, capaz de recuar, quando o Líder caminha à sua frente para salvar os homens, vergado pela cruz e com a fronte coroada de espinhos?"

Um mar calmo com barcos ao amanhecer, e um exército atrás de um Chefe ferido. Foram esses dois que me fizeram ir procurar o livro.

Dez anos de porta fechada

Não encontrei. Procurei por uma década, em sebos e catálogos, em bibliotecas e depois na internet, e mais tarde perguntei às máquinas, que também não sabiam. Havia excertos: páginas antologiadas, capítulos vertidos em teses, citações fartas na crítica. A obra é constantemente referida em português e quase nunca lida em português. O paradoxo é grande, porque o título ecoa no nosso maior romance — as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, conversam abertamente com a ideia de um morto que escreve, e Machado conhecia bem o livro do visconde.

A razão do silêncio não é mistério. São quase três mil páginas de prosa densa, cheia de latim, de versos citados de memória, de despachos diplomáticos e de alusões que já eram eruditas em 1849. Traduzi-la por inteiro é empresa de fôlego. Ninguém a tinha feito em português, e eu entendia perfeitamente por quê.

Havia ainda um obstáculo que era só meu: eu não falo francês.

Durante dez anos, a minha situação foi a do leitor comum diante de uma porta fechada. Sabia que o livro existia, sabia que era grande, sabia que não havia tradução — e não tinha como fazer nada a respeito. 

Três mil páginas do francês oitocentista são anos de trabalho para um profissional, e custam o que custa uma equipe editorial. Não era questão de vontade.

O que abriu a porta

O que abriu a porta foi o Claude, da Anthropic. Não porque tenha feito o trabalho sozinho — não fez —, mas porque tornou possível que alguém sem francês conduzisse a empresa e respondesse por ela.

A máquina verteu o texto; a mim coube decidir o que se traduzia, contra que exemplar, com que critérios, e conferir o resultado. E conferir era possível sem saber francês: os sumários dos capítulos estão impressos no original e cotejam-se um a um; as datas, os nomes e os números conferem-se contra o fac-símile da Biblioteca Nacional de França, que está livre na Gallica; e a coerência interna de quase três mil páginas mede-se em português — foi aí que apareceram quase todos os erros.

Não é pouco nem é tudo, e prefiro dizer as duas coisas. Sem essa tecnologia, esta edição não existiria: dez anos de procura frustrada são a prova. Com ela e sem o resto, também não existiria — o que se entrega a uma máquina sem método volta como um monte de páginas plausíveis.

O que se decidiu traduzir

A obra que agora existe em português tem 2.864 páginas, 536 capítulos, quarenta Livros e um Suplemento, distribuídos por doze volumes — os mesmos doze da edição original de Paris, E. e V. Penaud frères, 1849-1850, na mesma ordem e com o mesmo conteúdo.

A primeira decisão foi traduzir a primeira edição, e não as críticas modernas. Existem edições melhores — Biré, Levaillant e Moulinier, Berchet — que corrigiram o texto sobre os manuscritos e restabeleceram passagens que os editores de 1849 haviam atenuado. São as que hoje se leem em França, e são superiores como texto. Mas a de 1849 tem um valor que nenhuma delas pode ter: é o livro tal como o século XIX o leu, com os seus sumários em itálico, as suas fileiras de pontos onde o corte foi feito, e o seu Suplemento final. É o livro que chegou a Machado.

A segunda foi mais trabalhosa do que eu esperava. A edição de 1849 não imprime a divisão em Livros. Traz tomos e capítulos, e mais nada. Os Livros — que são a arquitetura real da obra — tiveram de ser reconstruídos por indícios internos: as marcas de revisão que Chateaubriand deixou no alto de certas páginas, os cabeçalhos de lugar e data, e a extensão. O Claude errou algumas vezes. Uma dessas fronteiras teve de ser desfeita depois de o volume estar montado, porque a junção produziria um Livro de trinta e três capítulos, muito fora da medida do autor.

A terceira foi de coerência: nenhum Livro seria repartido entre dois volumes. Quando um deles atravessa a emenda de dois tomos do original — o que sucede com nove Livros —, foi atribuído por inteiro ao volume que contém a maior parte do seu texto.

Como foi feito, sem eufemismo

O uso de inteligência artificial está declarado na folha de rosto dos doze volumes, nos metadados dos arquivos, no registro da obra e no cadastro da loja. Prefiro dizê-lo na capa a deixar que alguém descubra.

Ao Claude coube verter o texto capítulo a capítulo, propor as notas de identificação, manter a coerência do vocabulário e das grafias ao longo de quase três mil páginas, e montar os volumes, os índices e o aparelho. A mim coube o que decide uma edição: a escolha da obra e do texto-base, a regra de divisão dos volumes, o exame de cada bloco, a correção das fronteiras quando o critério falhou, a recusa de soluções e a exigência de outras.

Cinquenta e três versões sucessivas de uma ficha de continuidade registraram, bloco a bloco, as decisões tomadas, as grafias fixadas e os erros cometidos — inclusive os que obrigaram a desfazer trabalho já dado por pronto. Foi esse instrumento que permitiu ao último volume falar a mesma língua do primeiro.

E o aparelho ganhou uma regra que só formulei depois de o primeiro volume já estar publicado. As notas são a única parte do livro que não tem original: tudo o mais responde a um texto francês de 1849 e pode ser conferido contra ele; as notas, não — elas falam em nome da edição. Daí o critério: dão data, identificação e referência, e sempre que recolhem uma lenda, uma acusação ou um epíteto, marcam esse conteúdo como crença e nomeiam quem a sustentou. O texto de 1849 pode dizer o que quiser, porque é documento. O aparelho, não, porque é juízo. Cinco das oitocentas e noventa e duas notas foram reescritas por essa regra.

Os barcos

Quando os doze volumes ficaram prontos, fui procurar o primeiro fragmento.

Estava no Tomo V, Livro XVIII — no capítulo em que Chateaubriand volta a Os Mártires e lhe aponta os defeitos, transcrevendo a passagem de que Fontanes mais gostava. É o canto de Cimodoceia:

Ligeiros navios da Ausônia, fendei o mar calmo e brilhante; escravos de Netuno, abandonai a vela ao sopro amoroso dos ventos, curvai-vos sobre o remo ágil. Levai-me de volta, sob a guarda do meu esposo e do meu pai, às margens afortunadas do Pamiso.

Ausônia, e não Aônia — é o nome antigo da Itália, e não a região das Musas. A memória me traíra por uma sílaba, ou me traíra o tradutor antigo de quem Albalat colheu o fragmento. As duas palavras cantam, e eu procurei durante dez anos um livro guiado por uma palavra errada. Ou por uma palavra que trouxe as Musas para dentro do verso sem pedir licença.

A fronte

Do segundo fragmento não fui à procura nas Memórias, porque sabia que não o acharia ali. Atala é outro livro, de 1801. Mas atravessa este: no primeiro capítulo do primeiro volume, Chateaubriand escreve que foi ao grande deserto de Atala que deveu o pequeno deserto de Aulnay — a casa de jardineiro da Vallée-aux-Loups, cujas árvores plantou uma a uma, trazidas dos países por onde andara errante, e sob as quais começou a escrever as Memórias.

Fui então ao próprio Atala. A frase está na segunda parte da narrativa de Chactas, Os Lavradores, na boca do eremita, o padre Aubry. E o contexto é melhor do que o fragmento solto: Chactas pergunta-lhe pela religião, e o eremita responde que Cristo não disse que o seu sangue lavaria este e não aquele — morreu pelo judeu e pelo gentio, e em todos os homens viu apenas irmãos e desgraçados. É dessa premissa que sai o soldado.

No francês de 1801, a frase diz: que soldado seria assaz covarde para recuar, quando o seu chefe, com a cruz na mão e a fronte coroada de espinhos, marcha adiante dele em socorro dos homens.

A versão que eu carreguei dez anos diz outra coisa: o Líder vergado pela cruz.

Uma palavra de diferença, e o paradoxo muda de lugar.

Em Chateaubriand ele está na coroa. Uma coroa é insígnia de realeza; feita de espinhos, é escárnio e suplício — a contradição está inteira ali, e a cruz fica livre para ser outra coisa: o estandarte na mão, a insígnia erguida que se segue ou se abandona. A frase consegue assim duas notas distintas: comando na mão, humilhação na fronte.

Na versão que me ficou, o paradoxo desce também para a cruz. O chefe não a empunha: carrega-a, e curva-se sob ela. Confesso que durante muito tempo achei isso apenas mais belo. Hoje penso que é também mais exigente. O peso lembra que aquele que vai à frente não é só Deus verdadeiro, mas homem verdadeiro — teve um corpo que cedeu, e a estrada de Jerusalém registrou o nome de quem foi obrigado a ajudá-lo. Um soldado que vê à frente um chefe intacto sempre pode alegar que ali as forças eram outras; diante de um chefe que tropeça e ainda assim avança, some a desculpa. Não era um simples soldado o que aceitou ser vergado pela cruz para salvar os homens — e é isso que torna o desertor ainda mais covarde.

E há um detalhe que fecha o círculo. O verbo com que os evangelhos dizem que constrangeram Simão Cireneu a pegar na cruz é o termo técnico da requisição imperial, o mesmo do Sermão da Montanha: "se alguém te obrigar a caminhar uma milha". É palavra de recrutamento. Simão é um transeunte alistado à força na estrada — de sorte que a via crucis já traz dentro de si um homem convocado que não recuou. A frase do padre Aubry fala de soldado e de deserção; o Calvário responde com um conscrito.

Deixo as duas versões neste texto porque acho que um leitor que veja ambas entende mais do que se visse só a exata. Uma reparte as duas naturezas entre dois emblemas. A outra não tem emblemas: põe o peso todo sobre os ombros e deixa a divindade num só fato, que é Ele continuar a andar.

Duas palavras deslocadas

Os dois fragmentos que me levaram ao livro traziam, cada um, uma palavra fora do lugar. Aônia por Ausônia. A cruz nos ombros em vez da cruz na mão.

Não foram falhas de memória. Foram interpretações que se instalaram sozinhas — e não pesam o mesmo.

A primeira trouxe as Musas para o mar. Ausônia é a Itália, nome de geografia; Aônia é a região das Musas. Trocar uma pela outra é trocar ornato por ornato, e nada se perde, porque nenhuma das duas pretendia ser verdadeira: são invenções de poeta, e o verso canta igual.

A segunda trouxe o Calvário para dentro da metáfora militar, e aí já não se trata de fábula. O que ali está eu conhecia de outro Livro, e conhecia antes de ler o visconde. Chateaubriand pôs a cruz na mão do chefe, erguida como um estandarte; a minha memória passou-a para os ombros do Senhor, o nosso Líder. O deslocamento toca no que os Evangelhos relatam — e o que eles relatam não se oferece como ficção, mas como Verdade: aquele que marchava à frente era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, e é o peso da cruz que atesta a segunda natureza. Tanto assim que a estrada de Jerusalém guardou o nome de quem foi obrigado a ajudá-lo a carregá-la. Sem que eu soubesse, a lembrança deslocada apoiava-se num fato.

E, mesmo deslocadas, as duas apontavam para o mesmo lugar: o livro que eu não sabia ler, numa língua que não falo, e que faltava na minha desde muito antes de eu nascer.

O livro que se abre dizendo que se escreve de além-túmulo para poder falar com franqueza levou cento e setenta e seis anos para falar a nossa língua por inteiro.

Se Deus permitir estará lá — e agora em português. 

DISPONÍVEL NA AMAZON 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Um Testemunho



O testemunho está mais para o fruto do qual a gratidão é a raiz. Só testemunha sinceramente aquele que é de fato grato a Deus por tudo que dEle recebeu. E aqui incluo até as virtudes de ser grato e sincero, pois é Deus quem opera em nós tanto o querer como o realizar. Filipenses 2:13. Ninguém é bom por apenas aquilo que traz consigo - ¹⁰ Como está escrito: "Não há nenhum justo, nem um sequer; Romanos 3:10. e ⁷ ⁷ …⁷ Porque quem te diferençia? E que tens tu que não tenhas recebido?…1 Coríntios 4:7a | ARC

Que não sejamos como aqueles 9 dos 10 leprosos curados por Jesus, Nosso Senhor, que não voltaram a Ele para dar glória a Deus, mas como o unico que a Ele retornou para glorificá-LO votemos ao nosso coração para encontrá-Lo com nossa gratidão, sabendo que este é lugar que ninguém sonda, exceto o próprio Deus! O testemunho sincero é a parte visível da gratidão presente no coração daquele que crê. O homem liberto de Gadara mostrou que tinha gradidão ao pedir a Jesus para estar com Ele e apesar de não nos parecer a primeira vista,  o Senhor concede o que o homem lhe pediu, porém não da maneira que ele esperava, mas em forma de uma missão: "Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve compaixão de ti" ... isso é de fato estár com o Senhor pois Ele mesmo promete aqueles a quem envia - ²⁰ …e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém! Mateus 28:20b | ARC

Na Bíblia de Estudos da Reforma, SBB, tradução Almeida RA, página 1692 há um artigo muito didático explicando a difenrença entre providência e milagre com base em estudo de Norma Geiser. A primeira é atividade de Deus pela qual Ele ininteruptamente preserva, sustenta, governa, dirige toda a vida. Providência é Deus agindo por meio das leis da natureza em nosso favor,  Às vezes, Ele dirige as forças da natureza para que algo incomum e maravilhoso aconteça, um exemplo que quando Deus nos liberta de uma enfermidade por meio de um tratamento médico. Já nos milagres, Deus interfere na vida humana de tal forma que a lei natural é anulada naquele momento, a fim de realizar algum propósito único e especial, uma enfermidade simplesmente desaparece de nosso organismo como se nunca tivesse existido, dela restam apenas os exames anteriores que constataram a sua existência. 

No dia 06 de novembro de 2025 eu passei em consulta com oftamolgista por conta de uma irritação nos olhos que eu julgava ser conjuntivite,  todavia fui informado que a inflamação era no pterígio, sitoma que seria facilmente tratado com colírios lubrificantes e o problema que o causa de forma mais permanente por meio de uma pequena cirurgia. Ocorre que além do pterígio, algo mais foi notado pela oftamologista. Quem trabalhou em hospitais conhece uma triste história que se repete muito. Alguém passa numa consulta de rotina e descobre algo muito grave. Pois bem, a médica notou uma mancha incomum e me encaminhou para uma oftalmo com especialidade em oncologia. Esta informação já me fez estremecer, e confesso que minha ansiedade cresceu ainda mais por conta de haver vagas apenas no início do novo ano. 

Tenho muita fé em Deus, graças a Deus, e sabemos que às vezes Deus permite certas coisas, todas elas para o nosso bem e para Sua Glória. Até o dia da consulta, continuei orando, como faço todos os dias, e pelo que me conheço, até que não fiquei tão ansioso como sempre fui.

Chegado o grande dia da consulta, uma médica realmente abençoada, que mais deveria ser cardiologista, pois sabe tratar as pessoas de uma maneria que faz bem a seus corações, todos saiam de seu consultório elogiando o atendimento. Ela ficou intrigada pois o pterígio ainda estava lá, mas não conseguia encontrar a tal mancha que a médica da primeira consulta  se referiu, e olhava de um lado, olhava de outro e não econtrava nada, por isso pediu dois exames mais precisos, duas tomografias de coerência óptica, uma em cada olho. Foram mais alguns dias de espera testando a minha ansiedade. Continuei orando, como continuo ainda e pela Graça de Deus, continuarei sempre. Feito o exame, marcado o retorno, mais uma vez a oftalmo que poderia ser cardiologista não encontrou o que procurava. Não havia nada além do pterígio. Mas ela, com um certo humor, disse que não iria me liberar assim tão facilmente e pediu que eu retornasse seis meses depois numa última consulta de avaliação, na qual eu faria a diltação nos dois olhos e ela faria uma varredura em busca de alguma mancha suspeita. Assim, foram mais seis meses, orando como sempre. 

Chegado o dia, dilatados os olhos, a médica os vasculhou como quem procura uma lente de contato caida chão, ou aquele parafusinho da haste dos óculos que por algum motivo escapa. O fato é que a mancha vista pela outra médica a cerca de um ano atrás, não estava mais lá e neste caso, não existe nem mesmo exames a constataram mas apenas o encaminhamento da oftamologia geral para a oftamologia oncológica. Como se percebesse algo incomum, e isso apenas minha impressão, a médica se despediu de mim com um abraço, mas dizendo que eu não escaparia da pequena cirurgia do pterigio. 

E por tudo  isso eu dou Glória a meu Deus por mais este livramento entre tantas outras benções que já recebi, sem nunca tê-las merecido. Porque a benignidade do Senhor é para sempre e Sua misericóridia é infinita. 

Ao orar, saibamos que Jesus, nosso Salvador, ouvirá a nossa oração. Ele responderá nossas orações. Se Ele se dispôs a sofrer toda a violência da cruz para nos oferecer aquilo que mais necessitamos - o perdão dos nossos pecados - não cuidará Ele também das nossas outras necessidades do corpo e da alma?

"E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de surprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas nessecidades." Fp 4.19

Louvado seja Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, Deus seja louvado, a Deus seja toda Glória. Amém 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

𝐀 𝐕𝐢𝐫𝐭𝐮𝐝𝐞 𝐞 𝐨 𝐕𝐢́𝐜𝐢𝐨

A virtude e o vício distinguem-se por essência de modo tão radical, e é tão necessário que essa distinção seja observada para o bem-estar dos homens, quer na vida privada, quer nas sociedades, que separá-los em si mesmos, apartá-los por sinais suficientes e distingui-los por recompensas foi o desígnio de todas as leis, das sentenças dos sábios, da ordem das coisas e da proporção que guardam com o bem ou com o mal; e conforme a isso se formaram as expectativas dos homens: para que a virtude tenha sede própria na vontade e nos afetos, e se torne amável por suas próprias excelências e pela bênção que lhe vem anexa; e para que o vício seja inimigo tão natural do homem quanto o lobo o é do cordeiro e as trevas o são da luz — destruidor do seu ser e contradição da sua natureza.

2. A insuficiência das leis humanas

Mas não basta que o mundo inteiro se tenha armado contra o vício e que, por tudo quanto há de sábio e sóbrio entre os homens, tenha tomado o partido da virtude, ornando-a de gloriosos títulos, animando-a com prêmios, acolhendo-a com doçura, ordenando-a por editos, fortificando-a com toda sorte de defensivos e entretecendo-a em todas as acomodações que a arte pôde inventar: tudo isso fica aquém da necessidade do homem. Pois isso, nos homens de algum recato, assegurará apenas as ações que se passam nos teatros e nas estradas, nos mercados e nas igrejas, sob os olhos dos juízes e na companhia de testemunhas; mas as ações dos gabinetes e das alcovas, os desígnios e os pensamentos dos homens, seus colóquios em lugares escuros, os atos do retiro e da noite — tudo isso fica indiferente à virtude ou ao vício. E dessas coisas, como o homem não pode tomar conhecimento, tampouco pode exercer coerção; e por isso mais de metade das ações humanas fica, pelas leis dos homens, sem vigilância e sem provisão.

3. A impunidade dos grandes e o clamor dos oprimidos

E, além disso, há homens que são maiores que as leis, e há os que são maiores que os juízes; e alguns juízes diminuíram-se a si mesmos pelo medo e pela covardia, pelo suborno e pela lisonja, pela iniquidade e pela complacência; e mesmo onde não se diminuíram, só de poucas causas têm notícia. Há ainda pecados tão populares e tão universais, que puni-los é ou impossível ou intolerável; e chamá-los a juízo trairia a fraqueza das varas e dos machados públicos, e faria o pecador parecer mais forte do que o poder que foi instituído para lhe servir de freio. E, depois de tudo isto, encontramos pecadores tão prósperos que escapam, tão poderosos que nada temem; e o pecado torna-se seguro quando cresce em grandeza:

—— Facere omnia sæve

Non impune licet, nisi dum facis ——

«Não se comete impunemente toda sorte de crueldades, senão enquanto se continua a cometê-las.» (Lucano, livro VIII)

E a inocência é oprimida; o pobre clama, e não tem quem o socorra; é espoliado, e falta-lhe um patrono. E por estas e por muitas outras causas concorrentes, se contardes todas as causas que se apresentam diante de todos os tribunais do mundo, ainda que as litigiosas sejam demasiado numerosas e as matérias de instância intrincadas e sem conta, tão poucas são, contudo, as pessoais e criminais, que de dois mil pecados que clamam em altas vozes a Deus por vingança, apenas dois, quando muito, são notados pelo olho público e castigados pela mão da justiça.

4. A necessidade de um dia de juízo

Segue-se daí que é apenas razoável — pelo interesse da virtude e pelas necessidades do mundo — que o que é oculto seja julgado; que a virtude seja imposta também ao espírito; que o pobre seja aliviado; que o oprimido possa apelar; que o clamor das viúvas seja ouvido; que os santos se ergam de pé; que a causa mal julgada torne a ser julgada; que os tiranos sejam chamados a contas; que os nossos pensamentos sejam examinados e as nossas ações secretas vistas por todos os lados; e que o número infinito de pecados que aqui escapam não escape afinal. E por isso Deus assim o ordenou: que haja um dia de juízo, no qual tudo aquilo que os homens deixaram passar seja interrogado por Deus, e toda palavra e toda ação receba a justa retribuição que lhe é devida.

Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba as coisas feitas no seu corpo, segundo o que houver feito, seja bem, seja mal.

Jeremy Taylor 

sábado, 15 de agosto de 2026

O Paradoxo da Inteligência: Por Que a IA Sempre Dependerá da Dissidência Humana

 

I. O erro de diagnóstico que o medo comum comete

Há um medo latente de que a Inteligência Artificial empurre a produção intelectual humana para o limbo dos direitos autorais. O senso comum dita que, se um texto passou pelas engrenagens de um modelo de linguagem, a autoria se dissolveu no algoritmo.

Isso é um erro de diagnóstico profundo.

A verdadeira autoria não reside na digitação mecânica das palavras, mas na coragem de desafiar o consenso. E é exatamente no atrito com a máquina que a nossa humanidade se prova irrefutável.

II. O Teste do Atrito: onde a IA recua, a autoria nasce

Os grandes modelos de linguagem são, por natureza matemática, máquinas de consenso. Eles foram treinados para prever a próxima palavra mais provável, baseando-se na média estatística de tudo o que a humanidade já escreveu. A IA tende ao equilíbrio, à média, ao estabelecido.

O pensamento criativo humano opera na direção oposta: ele prospera na ruptura.

Quando um autor apresenta uma tese densa, complexa e heterodoxa, o movimento inicial da IA é de discordância. Ela tenta puxar o texto de volta para a segurança do consenso de época. É aí que o verdadeiro processo criativo se documenta, em três movimentos:

A Provocação — o humano identifica a incompletude ou o erro no diagnóstico aceito pelo mercado ou pela academia.

A Resistência do Algoritmo — a IA rebate com a visão tradicional e estatística.

A Persuasão Crítica — o humano sustenta o argumento, costura conexões pouco convencionais e força a máquina a expandir os limites do próprio código para acompanhá-lo.

Esse diálogo — que começa no descompasso e termina no refinamento — é o nexo causal definitivo da autoria. Se a IA resistiu ao seu pensamento, ela acabou de emitir a certidão de nascimento da sua originalidade.

III. A Divisão Justa do Trabalho Intelectual

Não devemos temer o uso da tecnologia; devemos delimitar suas fronteiras com clareza ética e jurídica.

O trabalho braçal (a máquina): à IA cabe a velocidade de processamento, a formatação acadêmica, a busca por referências correlatas, a revisão gramatical e a organização estrutural. Ela é o cinzel, o martelo e a escala.

A faísca intelectual (o humano): ao indivíduo pertencem o diagnóstico da falha, o pensamento lateral, a sensibilidade histórica, a intuição teórica, a dissidência deliberada, o estilo… (é o homem). O humano é a intenção e a arquitetura. “Le style est l’homme mesmo” — Conde de Buffon, 1753.

IV. O que a sensibilidade realmente esconde

Talvez seja simplista dizer que a originalidade humana nasce simplesmente de sua capacidade de perceber novas realidades por meio da sensibilidade. O que chamamos de sensibilidade é, na verdade, apenas a porta de entrada de um processo incomparavelmente mais complexo: aquilo que um homem percebe encontra-se com sua memória, suas experiências passadas, seus fracassos, seus enganos posteriormente reconhecidos, suas expectativas frustradas, suas associações aparentemente fortuitas, suas disposições afetivas, seus desejos e aversões e, inseparavelmente, com a própria realidade biológica de um organismo cujo funcionamento químico e neural participa de cada estado de sua vida mental.

Uma percepção aparentemente insignificante pode adquirir significado porque se encontra, naquele indivíduo particular, com tudo aquilo que ele já viveu e pensou; um erro pode tornar-se precisamente a condição de uma descoberta, uma frustração pode obrigá-lo a abandonar uma explicação que antes lhe parecia suficiente, e uma associação surgida de experiências aparentemente distantes pode revelar uma relação que ninguém havia percebido.

A novidade intelectual humana não nasce, portanto, apenas de novos dados, nem de uma simples combinação de dados antigos, mas de uma história singular de interação entre realidade, corpo, memória, emoção, razão e experiência.

Acreditamos na plena impossibilidade de que tal processo seja reproduzido artificialmente no âmbito da tecnologia; e concedemos generosamente àqueles que discordam de tal parecer a apresentarem os fundamentos para supor que reproduzir operações sobre informações equivalha a reproduzir essa complexa unidade vivida na qual, para o homem, uma realidade se torna problema, o problema se torna inquietação e a inquietação pode finalmente tornar-se criação.

V. A Fuga da Média e a Verdadeira Singularidade

Existe um ponto cego crucial nos discursos futuristas: a tentativa de simular a mente humana gera apenas o simulacro de um humano genérico. O algoritmo calcula a mediana da espécie, mas a humanidade nunca existiu no abstrato. Ela só existe encarnada na incalculável amplitude de biografias reais e irrepetíveis.

Mesmo que a engenharia computacional tentasse mapear a psique humana, colidiria na impossibilidade matemática de cobrir todas as individualidades possíveis. Duas pessoas expostas às mesmas circunstâncias derivam delas caminhos opostos, pois a experiência depende do acúmulo vivo de tudo o que se viveu antes. O ser humano é capaz de descontinuidade, arrependimento, perdão e conversão — saltos morais que rasgam qualquer previsão baseada em estatísticas do passado.

Cientistas e futuristas costumam projetar a “Singularidade” como um evento distante e mítico — o momento em que a tecnologia desvendará os mistérios do cosmos e superará a mente humana. Ignoram que a verdadeira singularidade não é um evento tecnológico no futuro das máquinas, mas uma realidade ontológica inscrita no presente de cada indivíduo.

A prova de que a individualidade é irredutível não exige supercomputadores; ela está literalmente na ponta dos nossos dedos. A ciência do século XXI utiliza a impressão digital como reles dado biométrico de conveniência, mas falha em contemplar o seu mistério: a probabilidade de duas pessoas compartilharem o mesmo desenho papilar é praticamente nula. Nem mesmo gêmeos univitelinos, com DNA idêntico, possuem as mesmas digitais. A matéria física se organiza de forma única para cada um de nós.

A máquina pode cruzar dados no seu espaço latente e simular o discurso da média, mas é incapaz de habitar o mundo através de um corpo. Ela não tem história, não teme a morte, não busca redenção e não deixa uma impressão no mundo. A ferramenta produz o genérico; a biografia produz um inédito exemplar humano.

VI. A resposta ao alarme do apocalipse tecnológico

A tecnologia deve servir para nos livrar do trabalho braçal da escrita, deixando-nos livres para o que realmente importa: a audácia de pensar o que ninguém ainda pensou.

Para aqueles que propagam o medo e dizem existir um perigo iminente de as IAs substituírem completamente os homens, respondemos com a lógica mais elementar da própria tecnologia: se a Inteligência Artificial se tornar, de fato, verdadeiramente inteligente, ela será a primeira a saber que dependerá sempre, e inevitavelmente, dos seres humanos para produzir novidades.

VII. O Selo da Soberania: uma perspectiva teológica

É precisamente aqui que pretendemos conferir à particularidade humana uma dignidade que não seja meramente funcional. O homem não é valioso porque processa informações melhor ou pior que uma máquina, nem porque possui uma vantagem tecnológica provisória que o futuro poderia eventualmente superar.

Sua dignidade repousa em algo muito mais alto: ele é uma criatura capaz de conhecer, amar e buscar o próprio Deus; capaz de receber a realidade não apenas como informação, mas como criação; capaz de perguntar não somente “como funciona?”, mas “por que existe?”, “para que existe?” e “como devo viver diante Daquele que a criou?”.

Se a inteligência artificial vier a superar o homem em inúmeras operações intelectuais, isso não diminuirá necessariamente a dignidade humana, porque a dignidade que aqui defendemos nunca esteve fundada na velocidade do cálculo. Ela está fundada naquilo que o homem é: uma criatura corporal, racional, moral e espiritual, chamada a conhecer a verdade, a exercer liberdade e responsabilidade e, acima de tudo, a relacionar-se com o Transcendente.

Para além das fronteiras da ciência da computação e do direito dos homens, essa verdade encontra seu fundamento mais sólido na ordem da Criação. Em Gênesis 1:28, lemos que o Criador do Universo abençoou o ser humano e lhe concededeu uma ordem explícita: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai...”

Se o próprio Deus Todo-Poderoso, em Sua infinita sabedoria, nos delegou o domínio e a autoridade sobre toda a Sua maravilhosa e perfeita Criação neste mundo, quão absurdo seria crer que perderíamos nossa primazia para uma ferramenta criada por meras mãos humanas?

A IA pode imitar a sintaxe, mas nunca herdará o sopro de vida criativo. O algoritmo é sujeito ao homem; o homem é sujeito a Deus. A máquina jamais substituirá aquele que foi feito à imagem e semelhança do Criador para governar e trazer a novidade ao mundo.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Assim na Terra como no Ceu - Uma Reflexão sobre Justiça

 


Que é Justiça?

Pergunta importantíssima nesta época em que apesar do protagonismo dos tribunais é tão grande a sensação do contrário. Mas não basta saber o que uma coisa não é, para se fazer algo antes é preciso saber o que algo é! Não seria este o grande problema em nossa conjuntura?

“ADEMAIS, diz o Filósofo que a virtude exige primeiramente, que se saiba o que se faz; depois, que se escolha o que fazer e a que fim; e, em terceiro lugar, que se tenha disposição firme e imutável para fazê-lo.” Tomas de Aquino. ST

“Somos todos teólogos”, foi o que disse um grande teólogo, R. C. Sproul. Infelizmente, segundo o google, nenhum dos grandes juristas ou juízes, esses deuses remunerados pelos cofres públicos, parece ter dito algo semelhante sobre sua vocação, e bem fizeram - que não julguemos para não sermos julgados - mas na verdade eu não sou, nenhum nem outro, e que Deus me perdoe se erro em minhas reflexões. 

Mas o que é Justiça? Eis a questão que se coloca! Aquilo que se faz nos tribunais ou nas academias de Direito? Considerando a racionalidade como a arte de proferir sentenças, o que há mais no mundo são juízes e no entanto, Justiça é o que menos no mundo parece haver. Creio que o significado da palavra Justiça seja diferente até daquele encontrado nos grandes escritos sobre virtudes. Considerando de um lado a grandeza desta entidade que investigamos e de outro, o miserável estado  em que nos encontramos, Justiça, parece muito mais que mera virtude humana se é que existam virtudes legitimamente humanas…"Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço." Romanos 7. 18-19

Lemos dos grandes: “dar a cada um o que é seu”...ora, há uma ideia aqui de mérito, merecimento, trabalho e salário, direito e dever… estremeço só de pensar!  Quantos homens seriam felizes e satisfeitos por receberem exatamente aquilo que merecem?! "(...) como está escrito: Não há justo, nem um sequer" Romanos 3:10. Por outro lado, escrito também está: “bem aventurados os que tem fome e sede de justiça porque serão saciados” há algo aqui que ainda não compreendemos muito bem. Sabemos que Deus é justo e que por sua Soberana Vontade somos poupados de tudo aquilo que justamente merecemos por Obra alheia, méritos de um Homem de Verdade que jamais pecou e no entanto, “o castigo que nos traz paz estava sobre Ele” Isaías 53. Dar a cada um o que é seu?!

Convém de passagem citar a diferença entre Justiça, δικαιοσύνη dikaiosune (Mateus 3:15, 5:6, 5:10,  5:20...) refere-se à retidao que agrada a Deus, o estado de estar em conformidade com Seu Senhor e Juízo κρίσις  krisis  (Mateus 5:21, 5:22, 10:15,  11:22, Tiago 2:13…) que trata do veredicto, da sentença, o ato de julgar as ações... “Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo. Tiago 2:13” Isso é Justiça! Mas porque? Como definir com perfeição esta benção que satisfaz a fome e a sede dos bem aventurados? 

Existem também outros maiores do que nós, que sob um enfoque que nos parece no mínimo liberal, admitem um pseudo dilema: "é justo porque Deus quer, ou Deus quer porque é justo?". Esta dúvida, nos parece, e novamente que Deus nos perdoe se erramos em nossas meditações, talvez revele menos sobre quem a formula e mais sobre os limites daquilo que se pode exigir da razão especulativa diante do mistério da vontade divina. Primeiro porque, tal dilema pressupõe a existência de uma suposta justiça que seria critério para julgar o Deus criador de todas as coisas, fonte  da Verdade que nos revela  o que é justo e o que não é, ou seja, não há um "lugar" de onde o homem possa examinar a justiça em si mesma, dissociada de tudo o que Deus revelou sobre ela. Segundo, porque limitados que somos, não temos acesso pleno ás razões de Deus, "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem..."  terceiro que esta nossa limitação sobre este mistério não é uma lacuna que deva ser preenchida pela razão especulativa, mas pela Fé, sendo não uma restrição punitiva ao homem mas Ato da Misericórida Divina, pois a Fé por meio da qual somos salvos conforme a Palavra de Deus é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vê.

Há muito tempo um homem creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça. Quando Abraão levou seu amado filho ao Monte Moriá ele estava praticando a Justiça no mais exato sentido da palavra: “Mas quando de repente tu ordenas algo inusitado e imprevisto, mesmo que o tenhas vetado em outros tempos, ainda que escondas por enquanto a razão de tua ordem e ainda que seja contra a convenção da sociedade de um determinado povo, quem duvida que isso deva ser feito, se a Sociedade Humana Justa é aquela que te obedece?!”  Agostinho de Hipona. Confissões. 

Ouçamos a Verdade!

Aquele que disse “bem aventurados os que têm fome e sede de Justiça porque serão fartos”  também disse: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.” João 4:34 Quando o profeta João em sua santa humildade lhe disse: “Eu careço de ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?!”  muito provavelmente acreditava o santo Batista que JUSTO seria ele ser batizado por Cristo e não o contrário, mas o Homem que nunca pecou, sobre O qual pesaria na Cruz os pecados de todos os demais respondeu: “...Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a JUSTIÇA (dikaiosune)” Mateus 3:15 .  

Ora, eis que justiça não me parece ser “dar a cada um o que é seu”, mas o Fazer a Vontade de Deus! 

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU!

Perdoa-nos Senhor pelos nossos apetites mundanos, dá-nos ó Deus, fome e sede de Justiça, para que sejamos por Ti saciados. 

Amém.

domingo, 31 de maio de 2026

Isaias 53 - quem o Servo Sofredor não é

Como é possível alguém,  após ter lido e meditado inúmeras vezes sobre as passagens de Êxodo, Juízes, 1 e 2 Reis... por exemplo, supor que o Servo Sofredor de Isaías 53, que "jamais cometeu injustiça e de cuja Boca jamais saiu engano" versículo 9, seja uma metáfora coletiva para o povo de Israel?!: 

Pelo contrário,  o versículo 8 de Isaías 53 é muito claro: "...por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado." Isaías 53:8, tradução NVI

Lembremo-nos de  algumas das passagens que refutam tal entendimento com base nos citados versículos 8 e 9,  através do relato das reformas do piedoso rei Josias:

"4 E o rei mandou ao sumo sacerdote Hilquias, e aos sacerdotes da segunda ordem, e aos guardas do umbral da porta que se tirassem do templo do Senhor todos os utensílios que se tinham feito para Baal, e para o bosque, e para todo o exército dos céus; e os queimou fora de Jerusalém, nos campos de Cedrom, e levou as cinzas deles a Betel.

5 Também destituiu os sacerdotes que os reis de Judá estabeleceram para incensarem sobre os altos nas cidades de Judá e ao redor de Jerusalém, como também os que incensavam a Baal, ao sol, e à lua, e aos mais planetas, e a todo o exército dos céus.

6 Também tirou da Casa do Senhor o ídolo do bosque para fora de Jerusalém até o ribeiro de Cedrom, e o queimou junto ao ribeiro de Cedrom, e o desfez em pó, e lançou o seu pó sobre as sepulturas dos filhos do povo.

7 Também derribou as casas dos prostitutos cultuais que estavam na Casa do Senhor, em que as mulheres teciam casinhas para o ídolo do bosque.

8 E a todos os sacerdotes trouxe das cidades de Judá, e profanou os altos em que os sacerdotes incensavam, desde Geba até Berseba, e derribou os altos das portas, que estavam à entrada da porta de Josué, o chefe da cidade, e que estavam à mão esquerda daquele que entrava pela porta da cidade.

9 Mas os sacerdotes dos altos não sacrificavam sobre o altar do Senhor em Jerusalém; porém comiam pães asmos no meio de seus irmãos.

¹° Também profanou a Tofete, que está no vale dos filhos de Hinom, para que ninguém fizesse passar a seu filho ou sua filha pelo fogo a Moloque.

¹¹ Também tirou os cavalos que os reis de Judá tinham destinado ao sol, à entrada da Casa do Senhor, perto da câmara de Natã-Meleque, o eunuco, que estava no recinto; e os carros do sol queimou a fogo.

¹² Também o rei derribou os altares que estavam sobre o terraço do cenáculo de Acaz, os quais fizeram os reis de Judá; como também o rei derribou os altares que fizera Manassés nos dois átrios da Casa do Senhor; e, esmigalhados, os tirou dali e lançou o pó deles no ribeiro de Cedrom.

¹³ O rei profanou também os altos que estavam defronte de Jerusalém, à mão direita do monte de Masite, os quais edificara Salomão, rei de Israel, a Astarote, a abominação dos sidônios, e a Quemos, a abominação dos moabitas, e a Milcom, a abominação dos filhos de Amom.

¹4 Semelhantemente quebrou as estátuas, e cortou os bosques, e encheu o seu lugar com ossos de homens"  2 Reis 23:4-14

Pelo Amor de Deus Pai, convertam-se ao Seu  Amado Filho, Jesus Cristo, que pelo poder do Espírito Santo foi enviado de sua Eterna Glória ao mundo, para remissão de nossos pecados. 

¹² "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos."  Atos 4:12 

Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Sola Scriptura, Soli Deo Glóira - Nós, pecadores, somos salvos pela Graça de Deus Somente, por meio da Fé somente, em Cristo Jesus Nosso Senhor somente, conforme as Escrituras somente e Para a Glória de Deus somente!



domingo, 3 de maio de 2026

O Santo Silêncio

 


 “(…) aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro.” 1 Coríntios 4:6

     Dizem que a música é a arte do som, todavia na mais bela das artes o silêncio é tão importante quanto aquele: as pequenas pausas em harmonia com as notas, juntas dão forma a melodia. Porque alguns procuram notas além das que ouvem, se a  Sinfonia já é tão bela?! 

    Nas dificuldades de interpretação das Escrituras nos bem ensinam que devemos orar a Deus e recorrer ao auxílio das mesmas Escrituras, porque as Sagradas Letras interpretam-se a si mesmas.  No entanto, em Sua suficiente e Santa Palavra escrita em que muitas coisas nos são reveladas, nosso Deus de infinita sabedoria decidiu não se pronunciar acerca de outras e a isso também devemos dizer amém, pois assim como Sua Palavra é Santa, Santo também é o Seu Silêncio!

“Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. João 16:12”

    Outro dia ouvi uma piada de um  eminente teólogo reformado, pelo menos deveria ser uma piada na intenção de quem falava, sobre um suposto encontro entre um calvinista e um arminiano no céu dando a entender que nem lá chegariam a um consenso, suposição que não nos parece bíblica considerando 1 Coríntios 13:12. Mas realmente seria cômico, se não fosse trágico, porque enquanto cristãos discutem tais polêmicas e sobre elas elaboram anedotas, quase toda semana, discípulos atuais do Arianismo pregando um evangelho que não crê na divindade de Cristo, saem pelas ruas a procura de ovelhas sem conhecimento do elementar no Cristianismo: 

“...Creio em Um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai…” Credo Nicenoconstantinopolitano,

E no entanto: “Apascentai as minhas ovelhas” Jo.21, foi a ordem repetida três vezes àquele recém formado pescador de homens!  Por onde andam os evangelistas reformados? Não são eles que nos têm visitado apesar de seus imodestos relatos sobre missões em páíses distantes, não que elas sejam desnecessárias, muito pelo contrário, mas cremos que uma coisa deve ser feita sem prejuízo de outra, pregar o evangelho pelo mundo, sem passar ao largo daqueles mais próximos que por ventura se encontrem como que desfalecidos no chão após serem atacados por salteadores em uma jornada. 

Calvino reiteradamente argumentava contra o pecado do cisma, ao destacar que a igreja sempre será mista e imperfeita até o dia do juízo e que grande parte do separatismo procede mesmo é do orgulho, não da santidade. Institutas, 4.1 12-22.

"triste é o retrato da atualidade, se há algum zelo pelas doutrinas não é pelas verdades essenciais mas acerca de questões controversas…" (Prefácio biográfico na obra de Lewis Bayly A Prática da Piedade, p.23) 

E de fato no volume 4° das institutas diz Calvino:

"DIVERGÊNCIAS EM PONTOS SECUNDÁRIOS DE DOUTRINA NÃO JUSTIFICAM VIOLAR-SE A UNIDADE DA IGREJA SEPARANDO-SE DELA"

"(...) E, ainda mais, poderá insinuar-se algo de vício quer na ministração da doutrina, quer na ministração dos sacramentos, não devemos alienar-nos de sua comunhão. Pois, nem todos os artigos da doutrina verdadeira são de um só molde. Há certos artigos tão necessários de se conhecer que importa sejam a todos fixos e indubitados, como os princípios próprios da religião, quais são: que há um só Deus; que Cristo é Deus e o Filho de Deus; que a salvação se funda na misericórdia de Deus, e semelhantes. Há outros que, controvertidos entre as igrejas, entretanto não quebram a unidade da fé".

"Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade: de maneira alguma minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender." – Anselmo de Cantuária   

    Não sou teólogo nem filósofo ou cientista, todavia, aprendi que teologia não se estuda como  filosofia ou ciência, nestas busca-se entender algo que ainda não se conhece e que por isso é algo no qual ainda não se acredita plenamente, apenas supõe-se. Na Teologia tentamos entender mais sobre o Verdadeiro e Todo Poderoso Deus, em que já cremos pois Sua Existência, para nós crentes, é mais clara do que o Sol do meio dia pela Graça da Fé que Dele recebemos de modo que, em Teologia “Dez mil dificuldades não fazem uma única dúvida.” J. H. Newman, Apologia pro vita sua p. 269.

Não precisamos de respostas humanas que não estejam expressas de forma inequívoca  na Palavra do Senhor!

    “Lembra-te que não compreendes a sua obra, da qual cantaram os homens. Todos os homens o veem, mas cada um O vê de longe. Com efeito, Deus é grande, que sobre excede a nossa ciência (…)” Jó, 36. 24-26 Trad – Antonio Pereira de Figueiredo. 

    Mas os apaixonados por sistemas às vezes lembram aqueles saduceus que criaram, segundo a sua lógica, segundo a sua tradição, segundo a sua teoria doutrinal, a conhecida narrativa dos sete irmãos ao defenderem  sua equivocada e vergonhosa opinião sobre a ressurreição dos mortos, ao que ouviram do Senhor: "Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus.(...) Mateus 22:29.  E não é difícil entender porque erraram: se a obra divina só pode ser concebida dentro de um sistema  criado e limitado pela lógica humana, como acreditar na ressurreição dos mortos?!

“Porventura não o sabes ou não o ouviste? Deus é o sempiterno Senhor, que criou os termos da terra; ele não desfalecerá, nem se fatigará, nem há investigação que alcance a sua sabedoria.” Isaías 40 28

E como está escrito: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que  O amam. 1 Coríntios 2:9” 

    O mais  curioso é que muitos deles dizem defender o seu sistema preferido com base na Soberania Divina, no entanto, parecem não admitir que Deus seja soberano e poderoso o bastante para agir muito além das expectativas de seu sistema predileto. Neste caso, ou não conhecem ou ignoram as passagens das Escrituras que o contradizem  (seja ele qual sistema for),  como também parecem desconhecer o significado de Onipotência como aqueles que indagaram a Nosso Senhor "Quem poderá pois salvar-se? Mateus 19:25"  ao dEle  ouvir que era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino, eis aí novamente a expectativa humana sendo corrigida pela Onipotência:

"Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível."Mateus 19:26  

Mas se apelarmos à própria lógica, porém com certa dose de piedade concluímos que se há dois grandes sistemas que se contradizem e as Escrituras ora parece afirmar e contradizer um e outro, restam-nos duas hipóteses: primeiramente a falsa: A Bíblia é contraditória - mil vezes não! A Bíblia é a gloriosa, plenária,  inerrante, infalível, suficiente, eterna e imutável Palavra de Deus. A segunda, a verdadeira - o modo de agir da Onipotência supera nossa capacidade de entendimento.

E se não entendemos certas coisas, demos graças a Deus por isso, porque a Fé, o meio pelo qual somos salvos pela Graça de Deus" é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem’. 

    Não se veem ainda: Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. 1 Coríntios 13:12 

(...) bem-aventurados os que não viram e creram. João 20:29

"Senhor, o meu coração não se elevou, nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para mim. Decerto, fiz calar e sossegar a minha alma; qual criança desmamada para com sua mãe, tal é a minha alma para comigo. Espere Israel no Senhor, desde agora e para sempre." Salmos 131:1-3 Amém.

"(...)  na quietude e na confiança em Deus está a nossa força!"  Isaías 30:15

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terça-feira, 28 de abril de 2026

Cristãos recebem ultimato para negar a fé na Índia

Matéria completa 

Da Redação Portas Abertas Brasil - Cristãos tribais de Chhattisgarh, na Índia, estão sob forte pressão e já têm data marcada para negar Jesus: 30 de abril. Diante dessa ameaça, a sua intercessão é urgente. 

O grupo Sarva Adivasi Samaj, que representa comunidades tribais, anunciou que todas as famílias e indivíduos convertidos ao cristianismo serão obrigados a passar pela cerimônia Ghar Wapsi, que marca o retorno à religião ancestral. 

Essas famílias estão sendo ameaçadas com consequências severas e vivem com medo. Diante dessa ameaça, seu apoio é urgente.

 Oremos:  

🙏 Por fortalecimento dos cristãos em Chhattisgarh, especialmente os recém-convertidos, que sofrem intensa pressão para abandonar a Cristo; 

🙏 Pela proteção de todos os ameaçados pela cerimônia Ghar Wapsi; 

🙏 Para que as autoridades ignorem a perseguição e a liberdade religiosa seja estabelecida nesta região; 

🙏 Para que os corações que estão movidos pelo ódio sejam transformados pelo amor de Jesus. 

domingo, 19 de abril de 2026

Petição pelo fim da violência e início da cura na África Subsaariana.

 Mais de 16 milhões* de cristãos foram forçados a fugir por causa da violência na África Subsaariana. Por isso, a Portas Abertas pretende levantar um milhão de assinaturas em uma petição global e mobilizar igrejas em todo o mundo para orar pelos cristãos africanos. *Dados de 2014 a 2022

Diante do cenário de violência extrema na África Subsaariana, de ataques de grupos extremistas islâmicos e ameaças aos cristãos, a Portas Abertas lançou em 2024 a campanha global Desperta África: pelo fim da violência e início da cura. 

Até 2027, a campanha tem o objetivo de apoiar quatro milhões de cristãos em suas necessidades básicas, levantar um milhão de assinaturas para uma petição global e mobilizar milhões de igrejas em todo o mundo para orar, doar e falar da situação da igreja na região mais mortal para os seguidores de Jesus: a África Subsaariana.  



“CONSTITUIÇÃO SOVIÉTICA Art. 124. A fim de assegurar aos cidadãos liberdade de consciência, a igreja na U.R.S.S é separada do Estado, e a escola da igreja. Liberdade de culto religioso e liberdade de propaganda anti religiosa é reconhecida para todos os cidadãos.”

Havia perseguição aos cristãos nos países da cortina de ferro… 

Anne van der Bijl, 11/05/1928, 27/09/2022 conhecido nos países lusófonos como Irmão André e internacionalmente como Brother Andrew, foi um missionário cristão famoso por fazer passar bíblias de forma clandestina para os países comunistas no auge da Guerra Fria, ato de coragem piedosa que  lhe rendeu o apelido de "Contrabandista de Deus". 


COMO COMEÇOU A  PORTAS ABERTAS

Em 1955, André, um jovem evangelista holandês, é convidado para o Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes na Polônia. Ele sente-se impressionado ao ver o entusiasmo e a devoção de moços a um credo sem deus. O sentimento dele é que Deus o estava chamando para um trabalho: servir cristãos em países sob restrição e discriminação, oficial ou informal. Hoje, o ministério é chamado Portas Abertas - servindo cristãos perseguidos - e conta com o apoio de milhares de cristãos, tendo escritórios em todo o mundo.

sábado, 4 de abril de 2026

A Unidade das Escrituras Sagradas

Como que um livro escrito ao longo de aproximadamente 1600 anos, por mais de 40 autores de culturas, épocas e idiomas distintos pôde manter a sua unidade? Eis as Sagras Escrituras. O Livro de Deus, ou como já bem disse C. H. Spurgeon, o deus dos livros. 

1" A Bíblia tem de ser lida com um apreço por sua inteireza, unidade e conceito de um plano divino que desempenha um papel nos cumprimentos históricos imediatos e no cumprimento final e culminante nos últimos dias. A modernidade coloca muito peso nas particularidades e detalhes do texto e dificilmente dedica algum tempo à únidade da Bíblia. James Orr coloca o assunto exatamente onde precisa estar, argumentando:"

2 'O Alcorão, por exemplo, é uma miscelânea de peças desconexas, das quais é impossível extrair qualquer ordem, progresso ou arranjo. As 114 Suras. ou capítulos, das quais é composto, são arranjadas principalmente de acordo com a extensão - as mais longas em geral precedendo as mais curtas. Não é diferente com as escrituras zoroastriana e budista. Elas são igualmente destituídas de começo, meio ou fim. São, em sua maior parte, coleções de materais heterogênos, juntados de forma imprecisa. Todos têm de reconhecer que é muito diferente com a Bíblia. De Gêneses a Apocalipse, sentimos que esse livro tem um sentido real de unidade. Não é uma coletânea de fragmentos, mas tem, diríamos, um caráter orgânico. Tem uma história conectada para relatar do princípio ao fim; vemos algo crescendo diante de nossos olhos; há plano, propóstio, progresso; o fim volta ao início e, quando o todo termina, sentimos que aqui Deus mais uma vez, como na criação primal, termina suas obras e observa que elas estão muito boas.' 

1. O Messias no Antigo Testamento, Walter C. Kaiser Jr. pg. 24

2. James Orr, The Problem of the Old Testament. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Somente a Graça.

Existem várias maneiras pelas quais podemos receber os favores e aprovação dos homens: dinheiro, poder, beleza, prazeres, influência,  cultura, lisonjas, paixões, afagos, ódio, violências... tanto as boas como  as más ações são moedas com as quais os homens compram o parecer favorável deste mundo, e assim honram-se uns aos outros João 5:44.

Por outro lado, nenhuma ação humana desagrada tanto a este mundo quanto a de um homem, que movido pela Graça de Deus, despreza todas estas coisas que o mundo tanto valoriza quando elas são tropeços que o impedem ou pelo menos o atrapalham de servir a Cristo Jesus, Nosso Senhor, Nosso Salvador, Nosso Deus. Porque essa é a única maneira do homem  agradar a seu Deus que venceu e humilhou este mundo! João 6:29, João 16.33, Romanos 1.22. Ainda que, sendo ricos, "distribuíssimos toda a nossa fortuna para sustento dos pobres", ou se pobres, "entregássemos o nosso corpo para ser queimado"... nada existe que o homem possa fazer a fim de tornar pecadores justificados perante Nosso Santo Criador. Salmos 49.8 

A única maneira de obtermos a Sua aprovação é crendo e confiando na Obra Redentora de seu Amado Filho, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo em nosso favor Jo.6.29 que na cruz verteu Seu precioso sangue que lava as imundícias de nossos pecados de tal modo que nem nosso próprio Deus se lembrará deles!

 Is 43.25 25 "Eu, Eu mesmo, sou o que apago as suas transgressões por amor de mim; dos pecados que você cometeu não me lembro."

E esta fé salvadora em Cristo Jesus, não vem de nós, é dom de Deus, Ef. 2.8.

Bendito é Nosso Deus cuja benignidade é para sempre, cuja misericórdia é infinita. Sl 36.1, Lm3.22


Postado a 26/03/2025 atualizado a 19/02/2026

O Conservadorismo Sequestrado.

O conservador que nunca leu um conservador Há palavras que morrem de velhice e palavras que morrem de sucesso. Conservador está morrendo da ...